11.8.09

voltei, recife.

abandonado este espaço desde há muito tempo, lembrei dele hoje. estou tentando retomar o gosto por escrever as famosas besteiras por aqui. mas, a correria dos últimos meses -- muitas vezes bastante improdutiva -- me deixou meio paralisado, meio que em inércia. aliás, inércia é uma palavra que comparece muito por aqui. tenho tentado sair dela. em busca de liberdade. palavra bastante difícil aliás e sobre a qual tenho refletido muito e muito. um sonho. um desejo. um pedaço. a busca da metade. um muito e um pouco de tudo isso. volto. prometo!

5.4.09

Bela

"Assim, nas suas aventuras sentimentais, [o Luís] dá, em troca de pedras preciosas, dinheiro falso e... como cada um dá o que tem, elas dão sempre pedras preciosas e ele continua a dar dinheiro falso. E, quando chegar a morte, terá ignorado dois dos maiores prazeres da vida: o prazer de possuir pedras preciosas e o prazer de as dar." em 13 de março de 1930. Florbela Espanca.

16.3.09

novela

voltando às postagens. hj fikei em casa e vi o primeiro capítulo da novela Paraíso, remake do original de Benedito Rui Barbosa. Muito interessante a maneira como se desenvolveu este capítulo - pena que, com certeza, daki a pouco tudo caia na mesmice das novelas. Fiquei prestando atenção na maneira como o script se centrou na caracterização, durante todo o capítulo, do núcleo principal de protagonista, utilizando da maneira como as personagens falam uma das outras p a construção da perspectiva e de uma primeira impressão sobre os mesmo, oscilando a perspectiva entre as duas familias. um show. até.

29.1.09

só pra deixar claro

não move mais meu mundo.

se ele se move, move-se pela inércia de continuar.

8.11.08

a uma pessoa que move meu mundo

Lílitchka!
EM LUGAR DE UMA CARTA


Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto –
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda –
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,trêmulo, s
e recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
– duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho.
Amanhã esquecerás
que te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.


Vladimir Maiakóvski

17.10.08

Rosário da Vida

Como se conta a história de uma vida? Palavras se organizam em frases que formalizam orações. Gestos, lembranças, memórias de nós mesmos, dos que nos cercam e cercaram. Então, toma-se a vida e, em feitio de oração, vai se tecendo fatos e se compondo e re-compondo, ordenadamente, tudo num rosário de orações, ou lembranças, ou dores, ou amores. De solidão.

O espetáculo Incelença, com o ator Chico Oliveira, de Campina Grande-PB, envereda-se por estes caminhos para nos contar a história de vida – meio fantasiosa, clivada de memórias, marcada pela dor da solidão do presente e pelas perdas do passado – de Seu Olimpo, um artista itinerante que se acompanha de uma trupe de bonecas, parceiras de palco, de vida e de silêncio. O que vemos no palco é centralizado pela presença do ator que, numa composição física singular do velho Seu Olimpo, vergado pelo tempo e por si mesmo, apresenta-nos, diante de uma praça hipotética o seu espetáculo e da sua Cia. Do Rosário. O diálogo entre palco e platéia é essencial ao desenvolvimento do que se vê: soma de teatro de rua e de improviso, este sim bem guiado por um roteiro rígido, penso sempre que este espetáculo comunicaria imensamente para além dos limites limitadores do velho palco italiano. Óbvio que se perderia a luz e aspectos da sonoplastia se dispersariam, mas a essência do que se vê tem cheiro de rua e um tanto do pó da estrada. A rua e a estrada são o lugar mesmo de Seu Olimpo. Chico Oliveira, seguríssimo do que faz, tem a difícil tarefa de segurar a platéia com um monólogo, divido em cinco blocos, na realidade, quadros que se encadeiam no fio do rosário que vimos comentando.

O ator, para além de sua imensa versatilidade física e vocal – veja-se a maneira como ele pode cantar um coco, num allegro vivace, ou, logo depois, um aboio melancólico ou, ainda, entoar a cadência repetitiva da incelença e, depois de tudo, retornar, sempre, ao registro específico da personagem, este sim, arrastado, baixinho, quase tímido –, consegue um feito impar: transitar com a mesma habilidade entre o risível ou mesmo o quase-grotesco de episódios prosaicos da vida cotidiana do Nordeste por onde ele caminha – com combinações de piadas feitas, baseadas em lugares comuns de nossa cultura; incursões pelo baixo corpóreo e pelo universo bem próximo de nossos ambientes rústicos, risíveis não por contraste ao alto, mas por sua singeleza e inocência – e, logo em seguida, numa manipulação de tempo e de sensações, consegue fazer este mesmo se distender ou se tensionar, quando a uma piada logo se contrapõe a dura realidade, e logo nos perguntamos: por que rimos?

A história de solidão, sim, pois este pra mim é o tema do espetáculo, bem resguardado numa fala solta, sem muita pretensão, no meio do terceiro bloco do espetáculo, quando se discutem os “perigos da morte”. Seu Olimpo nos fala sobre a sensação de fim, seja o fim do espetáculo e a conseqüente solidão do camarim, seja o medo da morte diante da solidão da casa. Neste bloco, com uma das bonecas, tanto se fala do tradicional número de Monga, a mulher gorila, como também se executa um número de facas. É fantástico ver como o ator consegue nos fazer transitar entre o externo – o manipulador das facas – e o interno à caixa – a sensação da boneca, esfaqueada – mediante seu trabalho físico.

Acompanhamos, com ele e suas bonecas, as romarias do Pe. Cícero do Juazeiro, cheiros e gostos da infância, entramos no mundo “da interpretatividade” e, neste mundo, somos levados a dores de amores, porque, afinal, “o amor embaça as vistas” e passamos a ver o mundo diferente, mas, pior mesmo é a dor “do espinho que atravessou o meu coração e ele sangrou”, quase mantra que me acompanha desde a saída do teatro. E, mais uma vez, o ator não nos permite entrar na dor, afinal, dor pra quê, estamos vivos!?

O último bloco é o do “melodrama”. É neste momento que se trava a relação de eterno retorno e quando se instaura a relação, melodramática, do ciclo de morte e vida da boneca: a de pano, destruído pela tia, durante a infância, visto não ser brinquedo de menino; e a boneca, inteira, sólida, identidade nova e construída de um homem que se percebe no mundo, gravada agora no corpo e na alma. Aqui, o espetáculo se fecha, dialogando com uma narrativa em off que o abre. Este seria o único reparo. A narrativa retoma a própria história do menino que brincava de bonecas e instaura uma antecipação do desfecho. Isto não é de todo ruim, mas desloca a nossa atenção pela demora excessiva da narração do que é o mais importante: a arrumação da companhia.

De resto, só o resto: ir ao teatro, e ver bom teatro, sempre é bom demais!

21.9.08

A Gaivota [versão 1,5, atualizando algo que escrevi em 2006, qdo da estréia]

Ontem fui ao Teatro Santa Roza para ver, mais uma vez, a leitura do Grupo Piollin, em torno de A gaivota, de Tchékhov. Devo confessar que a minha primeira recepção em relação ao espetáculo, quando houve sua estréia, não foi das mais tranquilas ou das melhores -- mesmo que hoje esteja pensando tudo diferente. Talvez seja impossível para um espectador "médio" de teatro ver apenas uma vez o espetáculo e ter acesso ao conjunto de signos e de possibilidades semânticas presentes nesta encenação. De outro lado, a linguagem cênica nos expõe a uma relação crítica do ator em vistas da personagem e à própria arte do ator -- numa linha de limite/intersecção com o novo naturalismo cênico, bastante em voga ultimamente, e o distanciamento brechtiano.
Mas, e principalmente, também se nos impõe um novo lugar na nossa relação com a cena: o do incômodo, o da não passividade, o da avaliação, o da construção dos sentidos em torno dos rascunhos daquilo que nos é [quase] apresentado. Os atores em cena esforçam-se para encontrar os pontos de vista das personagens, estabelecendo convenções que guiem a platéia nesta aventura. Creio que Everaldo Pontes e Ana Luísa Camino sejam aqueles que estejam mais confortáveis nesta tarefa. Um porque transita de uma maneira aviltantemente sagaz entre o ator-ele mesmo no palco [inclusive com direito a um depoimento pessoal, que cruza um episódio de sua própria experiência com o construto de sua personagem na malha textual] e a outra por conseguir esta alternância mediante uma análise, em minha avaliação, 'racional' desta relação que equaciona a atriz-ela mesma e a personagem. Ana Luísa, talvez, seja a nossa possibilidade de encontrar o conforto da empatia, pois todo o espetáculo não quer nos levar à catarse, ao contrário, nos obriga a permanecer avaliando, questionando, montando quebra-cabeças. Veja-se o que acontece na cena em que as personagens de Nanego Lira -- o escritor -- e Ana Luísa -- a atriz aspirante -- se encontram e se beijam e logo em seguida um outro ator não nos deixa envolver pelo beijo, bebendo prosaicamente um copo d'água. Cada vez a cena é estática, e isso não é negativo, cada vez mais a açaõ está no nível lingüístico-verbal; cada vez mais a voz não empostada, a necessidade de nãos e cair no drama, mesmo que haja concessões genias à Ana Luísa, na última fala de Nina.
Tendo a crer que a entrada de Thardelly Lima alavancou a presença de Buda Lira na cena. Thardelly ainda está chegando na estrutura, mas sua entrada já nos deu um novo fôlego, pois Konstantin apareceu e nasceu. É lindo o embate entre ele e a sua mãe, quando vemos dois grandes atores em cena. De um jeito ou de outro. É maravilhoso. A última cena, que culmina na morte dele ainda é fantástica, quando o espetáculo abandona definitivamente a ação e as rubricas se misturam à leitura de faals, como se estivéssemos numa leitura dramática.
O espetáculo, parece-me, constrói-se em cima de duas vigas ancoradas na dramaturgia -- aquela em que se discute a relação de oposição entre o novo e o velho [nas formas artísticas, no teatro, nas formas de representar, nos gostos em torno de repertório, nas relações entre personagens] e uma outra alicerçada na dialética entre fracasso e sucesso [na vida, nas relações pessoais, nos projetos estéticos]. De certa maneira, estas vigas também pesariam sobre a história e o lugar desta montagem no contexto atual do teatro paraibano e no lugar do Grupo na história deste teatro. O que nos é apresentado enquanto espetáculo nos põe a discutir questões pertinentes às formas dramáticas e às formas teatrais em nossa cena local. Impulsiona a efervescência de olhares sobre os modos, os fazeres e sobre o lugar da técnica no trabalho do ator, enquanto compositor da cena e de seus sentidos que se entremeiam no texto cênico, resultante do trabalho do encenador a partir do material [ou das possibilidades] dos atores. De outro lado, abre-nos veredas sobre a discussão em torno do repertório, sobre a existência dos grupos estáveis e sobre a necessidade de tais grupos manterem-se trabalhando, montando -- sejam os sucessos de público e de crítica, seja os exercícos de novos rumos e caminhos... que indiquem a necessidade de não parar...
É isso ainda. E devemos falar mais e mais.