8.4.07

[COM]Paixão

Na Antiguidade, o fantástico dos grandes festivais teatrais era ir, a cada ano, e, de repente, ver os mesmos mitos tradicionais serem re-escritos e re-encenados, revelando o talento na arrumação do novo enredo surgindo das mãos do dramaturgo. Verdadeiro presente ao público que, sempre, retornava às ágoras. De várias maneiras, a proposta teatral da FUNJOPE em torno do espetáculo tradicional da Paixão de Cristo de João Pessoa, PB, re-edita esta dimensão do igual sempre diferente. A grande questão – e o grande desafio – é, a cada novo espetáculo, contar [no texto e na cena] uma nova história, um novo enredo em torno da morte/ressurreição do Cristo.

Se, no primeiro ano da nova gestão da Prefeitura, o espetáculo foi vazado por signos recorrentes do bumba-meu-boi – revelando a similaridade entre essa brincadeira popular, também marcada pelas tensões vida/morte – o do ano seguinte foi permeado pelo universo da religiosidade popular e da romaria. Cada um desses espetáculos trouxe a tão famosa questão da teatralidade, palavra de ordem e comum num momento do teatro quando se rompe, cada vez mais, com o esquema dramático tradicional – aquele em que se identificam ator/personagem, baseado no diálogo como meio verbal e quase sempre preocupado com a lei das unidades [tempo, espaço, ação]. Assumindo a proposta de levar ao público pessoense novas dimensões em torno desta tão tradicional narrativa, tanto em termos de dramaturgia quanto em termos da dimensão teatral, assume-se, também, a meu ver, um compromisso com a população – público que lota as arquibancadas a cada noite e que espera por este grande espetáculo – e com a comunidade artística envolvida – que não só tem cachê garantido, mas, e principalmente, tem espaço para mostrar ao grande público um espetáculo com as qualidades a que tenho sempre me referido – a dimensão estética combinada a dada dimensão ideológico-política em torno da cultura local, popular. Tornaram-se, assim, protagonistas as personagens do povo ou elementos da cultura deste povo, transformados em motes generativos do espetáculo.

Na continuidade desta proposta, o espetáculo deste ano, Jesus, uma paixão, erra. E feio. Na tentativa de compor a cena cruzando elementos circenses com a cultura popular, o resultado não ultrapassa a tentativa – é um sem número de números circenses isolados e sem sentido, em arcos, numa cama elástica subutilizada, mas que está lá, em cena, o tempo todo. Talvez, o único momento em que se atinja a organicidade seja no ‘bacanal’ de Herodes. As estruturas armadas na praça sujam a cena, incomodam a visão da peça. Principalmente aquela que serve tanto ao palácio de Herodes e à cena das Bodas de Canaã: uma estrutura imensa atrapalhando a visão do prédio histórico, lindo e escondido.

O figurino é ineficiente na caracterização dos tipos e personagens. O diabo veste Gautier, pastiche de figurinos de Madonna, lá dos anos 90. As três lavadeiras-coriféias vestem vestidos extremamente sexys e elaborados em excesso, levando a caracterização para outros caminho. Os apóstolos ficam no limite entre a bufonaria e o palhaço, não sendo nem um nem outro. Maria, mãe de Jesus, entra em cena num vestido branco, simples em excesso, nos levando a perguntar, durante muito tempo [e isso em teatro é péssimo], se ela é o anjo da anunciação. Maria Madalena mais parece uma rumbeira. O pobrezinho do Jaraguá do reisado e do cavalo-marinho, só porque é feinho, vira artifício demoníaco da tentação – ainda bem [e, ao mesmo tempo, infelizmente] que pouca gente entende de cultura popular e lê apenas o óbvio das caveiras... Talvez, a única hora em que o figurino funcione seja no ‘bacanal’, talvez...

O texto dramatúrgico não cumpre o que promete: contar a história do Cristo a partir de uma perspectiva feminina. As mulheres são as personagens menos interessantes – não adianta ter Maria [sem nenhuma cena ou fala que modifique seu arquétipo de simples docilidade], não adianta ter Maria Madalena despindo-se do mundo em cena aberta, não adiante ter Marta e Maria [irmã der Lázaro] chorando pelo irmão, Herodíades e Salomé clamando pela cabeça de João Batista, Cláudia conversando com Pilatos – nada disso diz da perspectiva feminina. Estas personagens estão em qualquer texto da Paixão. Mas, seriam elas, mesmo, que num novo entrecho – a partir da chave ‘como se conta o mesmo diferente’ – que portariam, sim, talvez, os novos sentidos. A perspectiva em literatura, ou em arte, diz do lugar de onde vemos o sistema de ações encadeadas e, no que se refere a estas personagens, tudo é mais do mesmo. Diriam-me que a focalização feminina estaria, então, no coro de lavadeiras. Não, também não. Ou melhor, prefiro dizer que não.

Explico: se tomarmos tal hipótese como válida, como quer a dramaturgia e a encenação, veremos, mais uma vez, o mais do mesmo – a síntese alcançada é aquele que diz que mulheres, principalmente as do povo, quando em seus momentos de trabalho, utilizam-se do tempo para mexericar, julgar, tramar, operar juízos de valor. As coriféias, representadas por pelo menos uma boa atriz e outra grande atriz, têm os piores textos para falar. De alguma maneira, acredita-se que para se falar do cotidiano em teatro se tem que descer a um nível de prosaísmo que beira o ridículo, o cômico. Por que não se pode ter poesia? Não é que não seja possível extrair poesia da lavagem de roupas [sujas] – já incorporada à nossa linguagem como algo ruim, ou do pão com manteiga com suco de uva, ou do cuzcuz com ovo, da virose. Não. Tudo é possível, mas, como diriam os clássicos, com engenho e arte. Ok. Outros me diriam: mas a cultura popular é depósito de preconceitos conta a mulher. Sim. E, ao mesmo tempo, não. A cultura popular é viva, dialética [como o teatro]. Ou muito ela elogia o preconceito, ou muito resiste a ele. Nada é tão maniqueísta. Nada é tão preto no branco. Então, suas representações também não deveriam sê-lo. As coriféias, que introduzem cenas, comentam, julgam, tecem fios enquanto lavam roupas, recaem em grandes problemas. Cenas clássicas como a do perdão da adúltera ou da prostituta vêm em analogia a uma mulher futriqueira da comunidade, à filha de uma comadre que fugiu. Isso é péssimo, pois é vulgar, em um dos sentidos da palavra. A negação de Pedro, tão cheia de sentidos, visto a história posterior deste personagem é tratada como uma briga qualquer, uma traição entre iguais, uma birra, talvez. Judas é representado pela roupa preta que se tem que lavar: “tão escura quanto sua passagem pela terra”. Terrível.

Fico aqui, lembrando de um coco sobre lavadeiras, que diz: “Vai lavar roupa, mulher/ Vai lavar roupa, mulher // Não vai se perder, ô mulher/ Não vai se perder, ô mulher // Na beira da lagoa, mulher/ Na beira da lagoa, mulher // Dá um grito qu’eu vou ver/ Mulher, dá um grito qu’eu vou ver...” Singelo. Muito bonito. Por que as lavadeiras não cantam algo assim? Ao invés da hibridização das Bem-Aventuranças, meio canto-chão, com um Gospel à maneira de Jesus Christ Superstar – em tempo, nada contra JCS, eu adoro! É que cada coisa tem seu lugar: ou ao mar, ou à terra.

Como já falei demais, para terminar, queria falar só mais de uma coisa. Juro.

Há uma leitura possível de um dos níveis da encenação, iniciado na cena das Bodas de Canaã. O milagre do vinho é o início da vida mística e pública de Jesus – milagre menor para uns, quase de natureza doméstica, mas definitivo, pois estabelece a relação com a sua mãe. Enfim. Na encenação, derramam-se metros e metros de tecido vermelho de um grande cântaro que fica sobre a estrutura de diante da igreja. Aquele turbilhão de tecido vermelho fica ali, jogado durante todo o espetáculo e nós, cá na platéia, tentando entender. Aliás, como muita coisa – elementos de cena ficam por ali, sujando a cena, durante todo o espetáculo. Mas, voltemos. Depois da ceia, as lavadeiras, que até então eram narradoras, fundem à cena que se inscreve. Pegam o tecido vermelho e, com ele, formam o caminho da Via Sacra. Tremi nas bases. Se for intencional e planejado, revela uma dada perspectiva em torno do tema, insólita, mas respeitável. Se for um acaso, apenas um uso para aquele mundo de tecido, aí temos um problema. Como eu disse, num dos níveis de leitura, resulta, assim, do primeiro milagre a morte, como se o vinho prenunciasse o sangue da paixão, da ceia. Como se tudo apontasse para a morte. Tudo verdade, mas será que foi consciente? Será que este nível de compreensão atinge os espectadores?

Enfim – poderia discorrer outro mundo de questões: sobre como se retomam cenas dos anos anteriores, como atores e técnicos displicentemente andam de um lado para outro, muitas vezes, cruzando zonas em uso nas cenas. Há boas surpresas no elenco, outras péssimas descobertas... Mas, não vou dizer nada. Silencio. Espero agora o ano que vem... Mas, me pergunto:
Onde estão os deuses do teatro?
Estão mortos?
Mas, ainda assim, creio.
Pois, "Deus quando fecha uma porta,
toda a vida se abre numa janela..."

1 Comments:

Blogger Juliana said...

Este comentário foi removido pelo autor.

8:44 PM  

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