14.9.08

Estou ficando cego.

Há anos atrás, quando eu li “Ensaio sobre a cegueira”, do escritor português José Saramago, lembro que tinha me formado em Letras e que era época de fim de ano. Estes dois fatores devem ter atuado sobre a minha recepção de leitor, mas, sei que, pra mim, até hoje, esta é a maior experiência de leitura que já tive. Um livro que, entrando numa temática próxima a Kafka, traz à tona uma estranha epidemia de cegueira “branca” que assola um país. De início apenas um pequeno grupo é atingido, mas, depois, a infecção alastra-se em escalas perturbadoras e os infectados começam a ser excluídos do convívio social, levados a guetos, numa referência que me faz lembrar episódios ainda muito vivos da história do século XX. Na realidade, este tema casa com ele – intolerância à diferença, algo muito comum em nossa civilização ocidental – o diferente, o outro – seja por conta da cor da pele, da conduta sexual, do lugar onde se mora – acaba sendo visto como um perigo, uma ameaça premente.

Por medo da estranha doença, todos são afastados. Todavia, teremos nossos olhos límpidos em meio ao caos humano que se instaura. A “mulher do Médico” não cega. Inexplicavelmente, e é ela que nos conduz àquela jornada, sua de fato. Uma dona de casa, de hábitos prosaicos, resolve – por amor (ou solidariedade?) ao marido dizer-se cega, para ir com ele ao gueto. Creio que a palavra mais precisa é essa: solidariedade. Personagem arquetípico da capacidade feminina de doar-se, tornada quase uma representação-ação da solidariedade, organicamente constituída num único ser. Inteiro. Pulsante. Solidarizar-se com os outros. Mãe universal. Eterna. Terna. Esta mulher assume um fardo pesado demais para qualquer pessoa, ver o invisível. Ver aquilo que todos nós nos negamos a ver: a pobreza, a intolerância, a diferença, os piores crimes, a morte, a fome. Tudo o que viramos o rosto: a sujeira, o feio, a nudez. E ela vê tudo.

É esta mesma personagem que, juntamente com a câmera do diretor Fernando Meirelles, nos conduz ao mundo em desordem do seu filme do mesmo nome. Julianne Moore, como sempre disse, única atriz capaz de encarar-encarnar aquela personagem, numa interpretação contida, no ponto, assume a caracterização daquela mártir ultra-pós-moderna, por isso mesmo, tão antiga, tão arquetípica. Não vou me adiantar muito, para não quebrar a expectativa dos que ainda vão ver ao filme.
Só digo uma coisa.
Acabada a infecção, esta mulher que viu demais, como Édipo, percebe-se, novamente, em seu antigo lugar no mundo e, depois de tudo o que fez, entende: "Estou ficando cega".

1 Comments:

Anonymous Lygia said...

Também acho que é solidariedade. Mais que solidariedade, no sentido midiático que se tornou. É essa entrega mesmo que você falou: "organicamente constituída num único ser", parte de um todo mesmo, abalou na escolha das palavras de análise, pessoa, é isso aí, desse jeito.

Sobre quando ela pensa "estou ficando cega", já acho que, no livro e no filme, há abertura suficiente para, por ora ao menos, decidir-se se ela (e os outros personagens) volta(m) p/ seu lugar, ou se aquela experiência a fez mover de si.

7:03 PM  

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